Hermó

Espaço de reflexão Hermógenes de Castro & Mello

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Artigo nº 975 - 24/07/2019

Levar antas

Segundo Amyr Klink, os professores da engenharia naval devem conhecer melhor as jangadas e canoas dos caiçaras das costas brasileiras para projetar navios para até 17.000 containers, rebocadores para petroleiros de 400 metros, ferry-boats para 1.200 automóveis e por aí vai.

"Devemos levar antas que dão aula na USP para aprender o saber tradicional, diz Klink".

Ele como formado em administração de empresas torna-se autoridade em construção naval. Fico pensando a razão não ter se aventurado com uma jangada de feixes de embaúba para a Antártida...

Século 21, o século dos insultos.

Entretanto isso é comum na área da engenharia, onde todos não-engenheiros ou leigos se arrogam melhores conhecimentos, práticas e feitos.

Quase um ódio coletivo de técnicos, mecânicos, mestres e demais contra o idiota que foi por alguns anos à faculdade e com alguns cálculos projeta algo usando do embasamento téorico.

Não sabe de nada, quem entende é o Zézinho da Mecânica Nossa Senhora de Fátima, a trocar rebimbelas e pirombetas para a madame.

Enfim, nada contra antas, nunca entendi porque se tornou termo pejorativo. São animais dóceis e tranquilos.

Ou talvez por isso.

Pois espero uma das "antas" da USP solicite Amyr procurar caiçaras o ajudem em seus projetos, sem uso de desenhos, calculadoras, regras de Simpson e por aí vai.

Quiçá os leve à Coréia para ensinar melhor às antas de lá como fabricar navios para 17.000 containers.

Baideuei, Amyr, as jangadas hoje são construídas quase que exclusivamente para turistas, com compensado naval, preenchidas com isopor (uma invenção de engenheiros químicos), alguns já se arrogam velas de tecidos sintéticos e um ou outro tem discreto GPS de bolso, só para um momento mais delicado na navegação.

Por bom motivo até, a madeira para jangadas, por descoberta de algum imbecil engenheiro ambiental, foi limitado e proibido seu corte pelo governo do Ceará; estava praticamente extinto o vegetal. Pois as jangadas do modo antigo duravam muito pouco, a reconstrução era quase anual.

Amyr Klink em Parati, na FLIP, 2019. Foto de Mathilde Missioneiro, Folha Press.

Comentários

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Associação dos Engenheiros Politécnicos da USP - 18/07/2019 (19:07)

Sr. Amyr Klink Acerca de suas recentes declarações na FLIP, a Associação dos Engenheiros Politécnicos da USP tem os seguintes comentários a tecer: 1. Incompreensível a gratuidade da ofensa a toda uma categoria de profissionais. Se o propósito foi causar alguma impressão no público presente - “...disse, sob forte aplauso.”- certamente escolheu o pior caminho, o da ofensa; 2. Suas conquistas pessoais, de inegável mérito, só foram atingidas porque muita engenharia, não só naval mas também de outras especialidades, foi extensamente aplicada em seus projetos. E saliente-se: só resiliência e esforço pessoal seriam inúteis sem um grande aporte tecnológico em paralelo; 3. O saber definitivo ainda não foi atingido e nunca será; a sua busca constante direciona o progresso da tecnologia e a sua consequente aplicação em benefício da humanidade. Prática e teoria sempre caminharam juntas e assim continuarão. É muito pouco provável que a tecnologia ancestral para a fabricação de jangada de piúba no Ceará, motivo de sua jocosa referência aos professores da Engenharia Naval da EPUSP, seja suficiente para o projeto de um navio petroleiro de 400 m de comprimento ou um cargo para 17.000 conteiners! 4. A generalização e, particularmente, os termos infelizes e grosseiros utilizados para se referir aos professores da Escola Politécnica ofende não só os colegas da Engenharia Naval, mas de forma direta toda a Comunidade Politécnica, seus professores, seus alunos, seus ex-alunos, técnicos e colaboradores. E o que é mais surpreendente ainda, após ter sido convidado a proferir palestras, exclusivas aos alunos da engenharia, sobre suas experiências. A Escola Politécnica da USP, uma escola de excelência e uma das primeiras escolas de engenharia do país, está completando 126 anos em 2019 e tem tantas contribuições à Engenharia em particular e ao Brasil em geral, que seria ocioso e exaustivo listar todas suas conquistas. Lamentável, portanto, ser referida de forma desairosa como o foi. O mínimo que podemos aceitar é a completa retratação das ofensas recebidas. Associação dos Engenheiros Politécnicos da USP