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Artigo nº 953 - 23/06/2018

Condessa Faryofova

De Antón Checóvi.

Nessa minha longa viagem à Viladivostóqui conheci o pintor Cronieyv. Sem muito talento, obscuro e com curiosa deformação em sua mão direita, essa todavia não criava empecilhos à sua arte.

Após algumas conversas à noite, em um congelante restaurante próximo à igreja de Ascensão da Virgem Maria, o homem alto e de feições latinas procurou em nossa jovem amizade a forma de derramar seu sofrimento.

Uma sua cliente, condessa de certa nobreza menos aclamada, em algum momento mostrou-se inclinada à procura de intimidade romântica.

A que ele, com péssimo casamento em curso, concordou. Porém sempre cuidadoso como em sua menos cativante arte, antes queria detalhes, a saber o que levara a senhora ao arriscado gesto.

Seu enlace com o conde era tido como algo de felicidade, ante às festas copiosas promovia, com grupos de poesia e música, dança de cossacos e cantos dos japoneses. Além de suas seis lindas filhas. Já todas adultas, algumas casadas.

E Cronieyv desfiava ser ela mulher no passar dos anos nutrir tal asco pelo envelhecido conde, suas manias e doenças, seu lento avanço pela surdez e os problemas de visão, procurava afastar-se.

Deitava-se apenas após ele adormecido. Evitava o desjejum, desculpava-se por muito atarefada na noite, a merecer um melhor sono pela manhã.

Três vezes durante os dias de trabalho na semana ia, justo no horário do almoço, a um coro eclesiástico de mães da região, forma de evitar o repasto com o consorte.

E à noite procurava em seu pequeno gabinete a composição da história familiar, pois a nobreza era de dupla ascensão, escrevendo sobre o tema, reunindo iconogramas.

Longas viagens a Moscou e São Petersburgo faziam parte do esquema havia idealizado para evitar a proximidade do conde.

Esse curiosamente, assim o pintor, pouco se dava em preocupações com a relação. Aparentava certa tranquilidade. E, assim o artista, provavelmente sabia das aventuras de sua esposa, ainda apreciável em seus 50 e poucos anos.

Quando o conde faleceu por alguma questão biliar, a condessa desabrochou como tardia flor de agave mexicana. O luto brevíssimo; após, como a maioria das viúvas, foi a mais viagens, festas e por fim disse adeus à gelada Vladivostóqui, retornando a sua adorada Criméia, seus vinhos espumantes e a vasta família.

Ao meu amigo estranhamente indenizou em rublos, esse necessitava, pelos momentos suaves. Resolvendo suas questões financeiras.

Jamais reencontrou Faryofova, todavia em algum momento o carinho por ela prevaleceu, frustrando-se com a alegria de sua viuvez.

Retornei meses depois a Moscou e curiosamente encontrei na Praça Arkim um panfleto caído, sobre duas irmãs cantoras, com o mesmo sobrenome.

A apresentação já havia ocorrido... talvez filhas da condessa?

A nobreza russa não se furta às alegrias da viuvez!

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