Hermó

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Artigo nº 930 - 27/04/2017

O país que (não) queremos

Por Erica Teixeira, de Salvador

Que vivemos em uma democracia, todos sabem. Mas que essa democracia, muitas vezes, nos assusta, talvez nem todos dimensionem.

O Estadão acabou de perder meu completo respeito (não que eu signifique alguém importante para que isso seja levado em conta) como meio de comunicação.

A matéria veiculada, acredito eu, não deve ter passado por qualquer crivo de bom senso ou, talvez, essa seja a exata opinião de um Jornal como esse -e por vias transversas, de seu público alvo. O seu conteúdo, além de beirar o cúmulo do absurdo, felizmente me conforta. Seus argumentos são de uma pobreza cronológica, matemática, intelectual, cultural, política e social que eu me pergunto, com muito pesar, como um profissional desse quilate pode ser contratado. Felizmente, a leitura de cada parágrafo, ao passo que me angustia, me dá a certeza de que -perdoa esse homem, Senhor- seu autor não sabe o que fala (sujeito esse que, curiosamente, não foi mencionado no texto - propositadamente ?).

Uma greve geral ocorrendo às vésperas de um feriado, meu senhor, não está ocorrendo por meras paixões partidárias. A Comissão acaba de aprovar a Reforma (Sangria) Trabalhista e a da Previdência será votada na próxima semana. Isso não é motivação legítima para que as pessoas se mobilizem com a máxima urgência possível ? É muito difícil perceber a urgência da insurgência ? É culpa da população que todas essas reformas estejam sendo votadas em um mês que calhou de ter muitos feriados ? Ou melhor, é realmente correto que a população sofra todo esse ônus sem que absolutamente NADA seja feito ? Por mais óbvio que pareça, é bom lembrar que não existe país, empresa, previdência nem empregador sem empregado.

Acho justo também pontuar que, diferente do que foi dito, a participação do PT nessa manifestação é igual a de todas as pessoas que sofrerão os ônus das reformas. Se isso fosse orquestrado pelo PT, pra que diabos praticamente TODO o Poder Judiciário, Polícia Civil, Militar, Instituições Públicas, Rodoviários, Ferroviários, Instituições Públicas de ensino, Instituições Privadas de Ensino, além dos movimentos sindicais, sociais e etc (CUT, MST ..) estariam aderindo ? Nos dizeres de uma linda professora, Lara Soares, "Minha Gente", o Judiciário sente na pele, assim como todas as pessoas que precisam viver do que produzem, como a subversão dessas decisões governamentais e legislativas vão acabar com o país. E vou te contar um segredo: se tem uma coisa que o judiciário não é, é petista ou comunista ou "esquerdista" (até porque as pessoas sequer sabem as diferenças desses institutos e colocam tudo no mesmo balaio - mais uma das péssimas manias dos ignorantes políticos). Moro tá aí pra provar isso. Aliás, também não preciso dizer que PM também não é petista né ?

Observem que a motição dessas coletividades é a mesma: a perda de direitos conquistados com MUITO suor. E isso não tem nada a ver com partido, tem a ver com dignidade e sobreviência.

Precisamos repetir exaustivamente quantas vezes que o a greve é um direito constitucionalmente protegido ?

A crise é real, latente, preocupante, afeta a todos e, claramente, tem participação de muitas pessoas, entidades públicas e privadas e, inclusive, do PT.

Mas se a crise é real e GERAL, por que diabos não realizam reformas em TODOS os setores institucionais e -por que não?- no tratamento dado às entidades privadas ? Por que diabos não votam sobre a PEC 106 (que reduz a quantidade de representantes políticos) ? Por que diabos não cortam os custos parlamentares ? Por que não acabam com a DRU ? Por que não realizam mais audiências públicas para permitir que a população proponha medidas para reduzir custos, gastos e dívidas ? E, ainda, por que NINGUÉM cobra as dívidas dos bancos ? Por que as reformas são, CURIOSAMENTE, direcionada aos que não possuem nenhum poder de decisão perante as instituições públicas ? Claro que não. O Estado está a serviço do capital. E, com muito pesar, percebo que não existe Direito nesse planeta que passe por cima do dinheiro.

Triste país, dura realidade.

Erica Teixeira, a nova escrita da Bahia.

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