Existe um Brasil que nossa bolha não vê.
Um Brasil marcado por muitas lutas invisíveis, que apenas quem precisou enfrentá-las sabe exatamente do que se trata.
Eu, inclusive, falo cheia de dedos e de um lugar cujos privilégios, por algum movimento astrológico divino (e umas belas surras de minha mãe), não me deixaram cega. Nem arrogante. Tampouco indiferente.
A minha geração foi a primeira a sentir, verdadeiramente, os benefícios das políticas sociais que o governo Lula conseguiu implantar, à época, com algum sucesso. O tempo fez com que muitas delas se mostrassem insuficientes. Não resolutivas. Desatualizadas (talvez?).
Mas, quando criadas, foram profundamente transformadoras e violentas para as bolhas nas quais fui criada. As portas de acesso a melhores condições de vida, pela primeira vez (e desde o governo de Getúlio Vargas), foram abertas àqueles que jamais tiveram a oportunidade de construir um futuro melhor.
Vi, de perto — e pela primeira vez —, colegas que só puderam ser meus colegas porque tiveram acesso ao PROUNI, ao FIES, aos incentivos e aos aumentos significativos do salário mínimo, além de políticas sociais que lhes permitiam estudar em universidades privadas de qualidade sem comprometer a subsistência de suas famílias. Muitas delas sem uma única pessoa com diploma de ensino superior.
Nunca vi, depois do presidente Lula, outro político que tenha implantado políticas públicas tão revolucionárias quanto as realizadas pelo PT. Não precisei delas. Mas convivi — e convivo — diariamente com quem pôde desfrutar desses benefícios.
E vi mudanças. Não vi sozinha. Sei que todos aqui, em algum momento, viram essas mudanças comigo. Ninguém precisa endossar, aqui, o que digo, mas sei que reconhece, em seu íntimo, que isso aconteceu. E, quanto a quem não o faz — por má-fé, desatenção ou alienação, não me cabe julgar —, não acho que valha a pena me escutar: nossas réguas e nossos paradigmas de vida são diferentes.
Atribuir os benefícios que o Brasil pôde desfrutar exclusivamente a FHC, Temer ou Bolsonaro me parece, inclusive, uma desonestidade intelectual. Das graves.
Infelizmente, tantos outros acontecimentos foram se revelando nesses 20 anos, especialmente a perpetuação de tudo o que sempre existiu no Brasil: corrupção, interesses privados e muita, muita desorganização do Estado. Sim, do Estado. Porque a corrupção não é um privilégio de colorações políticas X ou Y.
É uma estrutura formada, pensada e cultivada para funcionar em benefício de uma parcela muito pequenininha da sociedade, que não aceita perder: nem poder, tampouco dinheiro. E isso antecede o PT.
É justo que falemos de corrupção. Mais que isso: é necessário que coloquemos essa pauta à mesa.
Ocultar um problema não faz dele algo menor. Transforma-o em tabu e agrava todos os problemas a ele atrelados, que já conhecemos aqui no Brasil. Mas sejamos honestos no debate: a corrupção não é um uísque caro com 16 anos de envelhecimento.
É uma estrutura muito, muito consolidada e que se entranhou, inclusive, nos grupos em que menos esperávamos encontrá-la: os trabalhadores.
A corrupção a gente reconhece, identifica, aceita como realidade e combate. E isso só pode ser feito dentro do Estado — e por meio de sua atuação. Com ele, já é difícil. Sem ele, impossível.
Mas voltemos ao ponto principal: a direita não entende a luta coletiva. Nunca a viveu — nem precisou vivê-la. E, exatamente por desconhecer esse fenômeno, agora questiona o resultado das urnas. Precisaram inventar mentiras — tais como a da mamadeira de pi&%#ca —, alegando que as pessoas estavam usando drogas e depredando o patrimônio público para lutar por seus direitos.
Sabe por quê? Porque a conjugação do verbo "vencer" nunca foi pensada de forma plural.
Os movimentos sociais são resultado de necessidades coletivas. Das lutas de muitos. E não sou eu quem vos diz: é a História.
Recente e antiga.
Engana-se quem acredita que a liberdade é um valor absoluto. Ela só é possível porque foi antecedida por muita luta. E lutar jamais será algo individual. Lutar é coletivo.
**Sigamos em frente!**