Hermó

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Artigo nº 972 - 03/06/2019

Quanto vale ou é por quilo?

Por Érica Teixeira, de Salvador

Hoje mais cedo, conversando com os chegados, foi colocada à mesa a pauta sobre a "frisson" envolvendo Neymar e seu enlace "romântico", com uma moça que foi passar um final de semana romântico ao seu lado, em Paris.

Inesperadamente, a acusação de estupro.

Sem entrar no mérito de qualquer tipo de debate envolvendo o consentimento ou não da donzela nessa relação sexual, a pergunta não sai da minha cabeça: um cara como ele não saberia utilizar qualquer outro atributo para se relacionar, que não o dinheiro ?

Há algum tempo, venho ponderando com meus próximos sobre uma latente problemática interpessoal: a monetização das relações.

Em tempos de relações líquidas, como já dizia Bauman, é assustador perceber como um sujeito que, em tese, teria todos os motivos para conquistar uma mulher de diversas formas, escolhe a mais pífia de todas: o dinheiro.

Nesse "looping" infinito, apenas caímos por terra que há, aqui, apenas a ponta do iceberg: vivemos uma geração que tanto prega mais amor, como tanto vive um desapego enfermo e uma superficialidade desenfreada.

E a moeda de troca mais fácil? Hiper-exposição e dinheiro. Não necessariamente nessa ordem.

Essa crescente, inclusive, não se vê apenas nas relações entre casais, mas em diversos espectros afetivos (e até mesmo laborais). Recentemente ouvi, de um pai em processo de divórcio, que sua maior preocupação era manter a qualidade e o padrão de vida dos seus filhos.

Ressabiada, questionei: "mas o fato de você estar pagando tudo o conforta enquanto pai ? De que adianta pagar a melhor escola da cidade e não saber que, às terças feiras à tarde, sua filha tem balé e prefere a cor azul, ao invés de rosa ? Mais que isso ... caso algum dia você não possa mais manter esse ~padrão de vida~ , a relação entre vocês será a mesma ?"

Não podemos, ou melhor, não deveríamos pautar nossos laços com um elo tão fraco como esse. Monetizar o que mais temos de valioso, o outro, nos coloca numa posição tão frágil quanto a que permitiu Neymar "conquistar" a sua donzela.

Nisso, toda e qualquer crítica nossa passa a ser hipócrita, se fazemos o mesmo, mesmo que em proporções não milionárias.

Pagar, consumir e jogar fora é sempre mais fácil.

Construir e consertar, nem tanto.

Cada um escolhe o que prefere.

Um grande jogador, sem dúvida. Mas o que passaria em sua cabeça, com esse "poder"?

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