Hermó

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Artigo nº 963 - 31/10/2018

Para não normalizar...

Por Odorico Leal

Primeiro, recusou-se a ler o jornal, “para não normalizar Bolsonaro”. Depois, dispensou o café, cancelando compromissos matinais.

Por volta da uma da tarde, enfraquecido pelo jejum, repeliu com asco a ideia de deixar o próprio filho na escola, o que, segundo ele, implicaria “normalizar Bolsonaro de forma pública e escandalosa”.

Já sob observação preocupada dos familiares, atravessou a tarde sentado na poltrona preta junto à janela.

Ocorreu-lhe, então, que contemplar aquele ir e vir de transeuntes nove andares abaixo acarretava também uma indigna e temerosa normalização do cotidiano brasileiro e, portanto, do senhor Jair Bolsonaro.

Pediu que voltassem sua poltrona para a parede.

Assim permaneceu até a meia noite, quando concluiu que dormir era uma forma de conceder derrota e, por óbvio, normalizar Bolsonaro.

Estudou a parede o quanto pôde, interpretou falhas e deformações, adivinhou formas que, como certos encantamentos, logo desapareciam.

A noite, por fim, veio adular seus olhos, que se entregaram.

Cedeu à normalização, Morfeu foi mais intenso...

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