Hermó

Espaço de reflexão Hermógenes de Castro & Mello

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Artigo nº 7 - 12/07/2008

Frio

Há pessoas que dizem gostar do frio. Viajam à procura do fenômeno. Deliciam-se com casacos grossos, meias, bebidas quentes. Algumas mais radicais vão aos quintos para alegrar-se com neve, como pintos em bosta. Projetam e constroem lareiras, divagam se "nó-de-pinho", que confesso fico imaginando um mirrado deficiente pinheiro todo retorcido serrado em tronchos tocos, é melhor que eucalipto e por aí vai. Sobem serras atrás de baixas temperaturas, compram cremes labiais e cremosas bombas de chocolate, transmutando-se em falseados primeiro-mundistas.

Pessoalmente não sou afeito ao fenômeno. Acho porém bonitas as paisagens frias, nevadas ou geladas. Em fotos e filmes.

Meninote, prêmio discutível por passar de ano na escola, recebia a incumbência de desfrutar nosso sub-tropical verão com uma solitária avó, na distante e gelada Alemanha do norte. Um lugar horripilante, absolutamente plano e com cidades onde o vento faz parte das edificações. Já vem, digamos, embutido. Na planta.

Montava-se no verão a tralha do inverno. Conservas preparadas em meteorologia amena, que a avó dizia com razão ser de hábito melhor que enlatados; de cerejas, pepinos, pêras e outras delícias. E cozidas ou apenas temperadas frescas dormitavam, por anos, no gelado porão. Em dias de importância, Natal e Ano Novo, abria-se uma ou outra; maravilha. Porém envoltas em frio, interminável frio. Guardavam-se no outono suave os briquetes de carvão para a calefação; depois já saía-se pouco e dá-lhe leitura, brinquedos e outros troços a aguentar o tedioso lusco-fusco alternado com sorumbático breu e temperaturas desaconselháveis. Um tanto de Vivaldi, sem sua adorável música das Quatro Estações; sentia-se na pele a realidade.

De tanto enfado, ia voluntariamente à escola por lá, férias por cá. Às sete e vinte começava, no escuro, de preferência com aulas de educação física. Um sádico professor da matéria (com perdões à categoria, mas não consigo dissociar esses mestres de alguma maldade intrínseca em relação aos jovens) fazia-nos correr descalços por um campo de esportes nevado, por 1 ou 2 minutos, para depois "curtirmos" o prazer dos pés ferventes. Restos de fascismo com sua doentia mens sana in corpore sano. Nenhum pai nem mãe reclamava, coisa de alemães e soturnos Schreberzinhos... Não achava divertido, mas obediente seguia os comandos do possível pederasta teutão. Herança maldita, o cego marchar.

Quando um magro sol leitoso surgia, já era metade da manhã. Mais um tanto, após torturantes sessões de flauta tocando "Todos meus patinhos...", surgia irritante lente de Francês e chamar todos pela tradução de seus nomes alemães, na língua que ensinava (Herr Kaufmann = Monsieur Le Marchand..., ha, ha, ha) com posteriores aulas de datilografia, treinar os dedos gelados com um estranho batuque nas mesas, todos em uníssono, a detonar saudades da terra.

Na volta, alguma diversão quando havia neve. Terríveis batalhas com bolas, na pressa feitas sem luva mesmo. A esquecer da proteção, azedando dedos duros à noite, com dores e a diligente vovó passar uns cremes fedorentos. Frio e dor, vento e arquitetura sombria. Lembranças.

A alegria do ar quente na volta ao Brasil era imensa, o bafo carioca no feio aeroporto do Galeão adorável. E em casa, um alívio estar longe do frio.

Neste dias, por onde correm ventos pouco tépidos e as mãos andam em picolé, a memória retorna ao vivido naquelas bandas. Lúgubres estações ferroviárias abertas, onde o vento parecia passar de Reiquiavique a Viladivostóqui sem interrupções, pessoas batendo as mãos já enluvadas, crianças com bochechas queimadas de frio e lábios em fissuras, neve dura, mole, dissolvida, empapada, com areia, com sal grosso, com terra.... lojas superaquecidas, vapor condensando nas vitrines, pessoas se digladiando contra os trajes pesados, como se outro seres fossem, depositando-as exaustas após o embate em vagas nos ganchos para casacos em restaurantes, cafés.

Um imenso mau-humor, coletivizado, justo. Todos a sonhar com primaveras; e eu com meu distante paraíso tropical...

Era assim.

Frio, frio, frio...

Comentários

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Gregorio Gomes - 31/07/2009 (11:07)

ja dizia um velho professor e historiador da minha terra: - Meus meninos a melhor terra é a terra do berço. isto passa com o tempo e a gente quando jovem não se apercebe muito da frase mas quando se depara em circunstancia muito diferente logo se lembra "minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá". a valourização so vem quando comparamos sentindo na pele.