Hermó

Espaço de reflexão Hermógenes de Castro & Mello

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Artigo nº 1029 - 05/04/2021

31 de Março, 1964

Tinha 7 anos de idade.

Estudava no segundo ano primário, Colégio Nossa Senhora Salete próximo à Travessa Salete e à igreja de mesmo nome em Santana, São Paulo, na catolicamente conservadora Zona Norte, medieval quase.

Eu notava a preocupação com o que ocorria no país. O rádio ligado, notícias alarmantes. E acusações mútuas, aquilo estranhei. O pai dizendo à minha mãe por "ideia sua", permaneceram no Brasil. Ela rebatia com "desejo de enriquecer os manteve por aqui", isso poderia se tornar a "grande Cuba."

Aliás eram palavras orbitavam nossa pequena família naqueles marcantes dias: Kuba, Kommunismus, Konsulat.

Pois esperava-se em caso de guinada violenta à esquerda, populista e antiamericana, os cidadãos alemães serem heroicamente retirados do país.

A mãe, sua irmã havia ficado pela sovietizada Alemanha Oriental, sabia a coisa era bem complexa atrás da tal Cortina de Ferro. Já minha irmã e eu, antes em 1963, havíamos sentido a questão viajando para lá.

Lembro perguntado daquilo achara, do alto dos meus 6 anos, responder a Alemanha Ocidental ser filme a cores, a outra preto & branco...

O passar pela cerca em Marienborn, ter o carro vasculhado para não traficar revistas ocidentais, meias de nylon ou café era paranóia bizarra.

Estado policial, apesar crianças, percebemos.

Adiante aqui março 64 pararam as aulas, o comércio fechou, no rádio somente música clássica e um ou outro noticiário da tal Agência Nacional. Um deles, indelével para mim, a voz do locutor indicando "tropas do General Kruel marchando sobre o Rio de Janeiro".

E meu pai exclamando, "meu Deus, guerra civil !"

Porém com apoio de boa parte da população digamos "esclarecida", pró-capitalista, com a bizarra Marcha da Família, dos mais corruptos governadores e grande parte do clero conservador, os militares em golpe "pela democracia", puseram Jango, Brizola e demais a correr.

"Sie sind weg!" (Eles se foram!) dizia a mãe, aliviada. Olhando para a montanha de leite em pó, água mineral, carne seca, feijoada enlatada (rara concessão à comida "deles"), pão de forma, margarina, açúcar, café instantâneo e a arma guardada por baixo de madeiras na lareira da sala de visitas. Ambos viveram com agruras a guerra na Europa, as lembranças e a fome ativaram os estoques e a proteção.

Portanto seguiu "liberação graças aos americanos", volta às aulas e 21 anos de forte repressão aos opositores da ditadura instalada, até Jimmy Carter recomendar a abertura. Lenta e segura... Os irmãos lá de riba sempre determinaram nosso destino ideológico, Dilma Rousseff que o diga.

Sendo ditadura de direita, com planos de investimento e corrupção sem repressão, veio inegável oportunidade de grandes negócios. Que os imigrantes, como meus pais, souberam identificar; e navegar pela conjuntura favorável, com sucesso. Ficaram, morreram por aqui.

No momento Bolsonaro assopra com churrasqueira e carvão úmido a brasa do auto-golpismo, as lembranças infantis retornaram.

Espero não precisarmos estocar alimentos e limpar armas esquecidas.

Em trajes civis, inicia a ditadura militar em 1964.

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