Hermó

Espaço de reflexão Hermógenes de Castro & Mello

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Artigo nº 993 - 05/11/2019

Chulé e prisão...

Os hábitos de Arnold F. Ussehbier eram mundanos, nada a diferenciar dos outros humanos.

Acordava cedo, dormia cedo. Rotina de homens da terceira idade. Ainda trabalhava, a ajudar quem iniciava na profissão. Aos fins de semana almoços que ele mesmo gostava preparar. Seu desejo não declarado: um boteco para receber com boa comida, mas se distanciou diante da perspectiva de mais trabalho.

A vida confortável. Casamento morno, normal para o período. Todavia a perceber que a esposa depois de tantas décadas juntos, havia cansado das eternas promessas não cumpridas, da rotina enfadonha. A saúde seguia, com seus troços. Mas aprendera a ignorar um tanto as coisas da própria carcaça, comum nos mais velhos.

Amigos poucos, a rigor cada vez menos.

Por sua culpa exclusiva, admitia. Navegando em outra esfera da ideologia reinante na classe média da nação, seus posicionamentos contra a atualidade do bate-não-sopra-e-vá-se-foder-esquerdista-agora-somos-nós, não o encantava. E percebera que no estilo "1936-1945" as pessoas mais e mais se posicionavam à direita de generais chilenos...

Um seu hábito, diante de renitentes dores nas costas, decorrentes de evidentemente incurável artrose, era procurar deitar e alongar a zorra da coluna. Às vezes em sofá de tamanho adequado. E a levantar os pés, apoiando em livro sobre o descanso lateral, que permanecia ali, ninguém o recolhia.

Pés às vezes suados, malcheirosos. O livro: Papillon, de Henri Charièrre. Histórias de prisioneiros na Ilha do Diabo, nos anos 1920-30.

E seu deleite, quando certo dia uma senhora abominável, daquelas que alçam Donald Trump aos céus como salvador das Américas, em rara visita ocupou assento no dito sofá.

Fresca e orgulhosa, maquiagem de toneladas, a esforçar-se falar os plurais, tomar cafezinho de dedo esticado. Vendo o livro, perguntou ao dito cujo do que se tratava:

"História de um bandido francês enviado a uma prisão em colonia na Guiana, lugar terrível conhecido como Ilha do Diabo e, segundo ele, dos raros escapou de lá." informou o velho à "madama".

Que então o folheou como folheiam aqueles nunca nada lêem. E, com discreto dilatar das narinas, detonou:

" É incrível Arnold, sente-se até o cheiro da prisão no livro. Alguns livros são marcantes mesmo!"

Foi rir na cozinha...

Henri Charièrre. Chegou-se a discutir seu livro Papillon ser apenas grande invenção. Mas é grande leitura, recomende-se.

Comentários

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Beate Christine Boltz - 07/11/2019 (15:11)

Eine erstklassische Erkenntnis des dritten Alters. Gut geschrieben!!!!!

Regina - 05/11/2019 (21:11)

Autobiografia parcial?

Erica Teixeira - 05/11/2019 (14:11)

ácido !

Reinhard Lackinger - 05/11/2019 (13:11)

Gut geschrieben! Hat mir sehr gefallen.

Jairo Gerbase - 05/11/2019 (11:11)

Dei ponto muito bom muito engraçado