Hermó

Espaço de reflexão Hermógenes de Castro & Mello

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Artigo nº 992 - 01/11/2019

Voar

Meu primeiro vôo foi em hidroavião, passeio na represa Guarapiranga de São Paulo. Aos meus 5 anos. Volta domingueira com meus pais e irmã.

O pai ex-piloto militar insistia começássemos a nos acostumar com o ato alado.

Jovenzinhos.

Uma longa decolagem, jamais esqueci. Barulho infernal e certas tiras de couro à frente da porta da cabine. Talvez abrisse em vôo, segurança a mais.

Vôo mínimo, coisa de no máximo 5 minutos.

O piloto um senhor falando (gritando na verdade) alemão com minha jovem mãe. Mais adiante, já adulto, soube ele ter sido sequestrado pelo Mossad, o acusava ser algoz de civis judeus no Leste Europeu e foragido por cá. Morto no Uruguai, deixado em uma caixa de gelo.

Houve e há forte campanha de seus descendentes brasileiros em isentá-lo das acusações.

Os israelenses nunca se manifestaram sobre o assunto... e eu a imaginar aquele talvez mais procuravam, Josef Mengele, morando ali pertinho, sob disfarce.

O segundo vôo foi ao Rio de Janeiro, pela Real Linhas Aéreas. Em um DC-3. Por volta de 1962. Portanto avião relativamente novo à época (e eu a perceber como os anos passaram). Servia-se Q-Suco em copos de plástico rígido e picolé Kibon. Jamais esqueci no plexiglas da janela trinca saindo de uma das bordas. Sem problemas, não eram aviões pressurizados.

Já o terceiro vôo foi a coisa mais emocionante para uma criança.

Julho 1963, primeira ida à Alemanha ver a avó. Um reluzente extra-novo Boeing 707 da Lufthansa. E o comandante do trecho Viracopos-Galeão era Erich Stocker. Colega de esquadrilha do meu pai, amicíssimos, de 20 anos antes na Alemanha. No KG-40, agrupamento de reconhecimento à longa distância com os Condor FW 200.

Em deferência ao amigo imigrado ao Brasil, me colocou no jump-seat da cabine de comando; e eu magnetizado acompanhei em silêncio total as manobras, até o pouso no Rio.

Onde me entregou à minha mãe.

Seguiram-se centenas de vôos, brevê de piloto de planador, de motor e por fim apenas sempre satisfeito passageiro. Até hoje, lugar me encanta: o interior de uma aeronave em vôo tranquilo.

Certa desconexão das mundanas coisas lá embaixo, um tanto irritantes.

Gosto de voar. Pilotar não mais, algo após a morte do meu pai, um apreciador de conduzir aeronaves e do entorno da atividade, me fugiu.

Burocracia grande, exames e mais exames, regras e mais regras, preços absurdos, de combustível às aeronaves. Estou um pouco mais velho, acompanhar é mais agradável, com aquele uisque na mão, onde ainda servido.

Na represa de Guarapiranga, por muitos anos, os passeios de hidroavião. O criador do serviço foi morto, acusado de foragido criminoso nazista.

Comentários

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Denise - 01/11/2019 (15:11)

Piloto de alma! Agora explicado.